
Ao se ler comparativamente os quatros evangelhos, ocorrência por ocorrência e dialogo por dialogo da tessitura destas biografias de Jesus, percebemos algumas posturas e formas literárias propositais de um autor, incompatíveis com os outros que salvam os livros tanto da visão radical de que Jesus nunca existiu que diz ser uma historia perfeitamente elaborada. Como também da visão fundamentalista de que os livros sejam uma obra divinamente inspirada e perfeita.
A primeira coisa que se nota ao olhar atentamente um episodio narrado por um evangelista e como é relatado por outro, é a inversão da ordem cronológica dos fatos e dos discursos, de forma que começo meio é fim de um mesmo relato e dialogo são invertidos livremente ou inconscientemente pelos autores. Acontecimento este em quase todo o decorrer de cada um dos evangelhos. Tornando no geral uma tarefa praticamente impossível de se tecer uma ordem cronológica e segura da vida concreta e histórica de Jesus.
Assim desta forma já a principio percebemos que nos evangelhos não existe uma combinação de autores, mas antes uma narração humana que demonstra tanto a natural impossibilidade dos escritores serem precisos literalmente depois de algum tempo do ocorrido, como a preocupação de se transmitir uma mensagem independente de ela estar sendo narrada infalivelmente na ordem que ocorreu tanto o fato como o discurso. O que tira já a princípio do evangelho tanto a possibilidade de uma divina inspiração ou uma elaborada invenção.
Ao passarmos dos episodio para a atenta observação das frases e discursos de Jesus, não só notamos que eles são invertidos em sua ordem de um autor para o outro, como também fica claro que os discípulos trocavam as palavras originais de Jesus por sinônimos, ou por descuido e esquecimento, ou para melhor propagar o espírito do ensino de Jesus. Pois enquanto um autor em uma mesma fala e episodio usa algumas palavras o outro usa outras expressões que não foram ditas originalmente por Jesus.
Mas que, entretanto significavam quase a mesma coisa, “quase” por que algumas frases de Jesus foram usadas por eles para significar também outras coisas entendias somente por eles do discurso de Jesus e “mastigada” para os leitores. Ou seja, pela troca sutil das palavras e expressões na mesma fala, não temos um registro das palavras originais de Jesus, mas uma tradução dos discípulos, conforme eles entenderam e quiseram que fossem entendidos.
Não obstante a inversão da ordem e a interpretação das palavras, os discípulos também fizeram naturalmente pela brevidade dos escritos: cortes e emendas na narração dos fatos, nos legando assim o melhor e mais significativo para eles num resumo cujo propósito não era a exatidão literal dos acontecimentos, mas a transmissão de uma mensagem que só poderia tocar o coração dos que não viram o que eles viram e sentiram, pela narração Editada e belamente romanceada da vida de Jesus.
E, sobretudo na comparação dos pequenos detalhes, objetos e números existem uma patente contradição entre eles, que muitos teólogos fazem um incrível malabarismo para tentar salvar os livros de imperfeição para provar uma doutrina sobre a bíblia que seria a sua infalibilidade literária e inspiração divina. Mas que sem saberem, tiram dela o seu fator vulnerável que faz com que os livros sejam autenticamente humanos. Pois a contradição em pequenos atos narrados por diversos autores, não anulam um documento histórico, mas antes demonstram que toda historia verdadeira e humana, só poderia ser contada nas condições de contradição e relatividade humana.
De forma que tal observação minuciosa e critica deixara bem claro que os evangelhos é uma edição humana da vida de um homem, como são editadas as idéias e falas de homens espirituosos cujo valor e o espírito de seus ensinos sempre transcenderam a letra e o literal, de forma que para se fazerem entendidos, os editores tiveram que tomar a liberdade até mesmo de tirarem às vezes os discursos do seu contexto literal arredondando e romanceando fatos e episódios para que os que fossem lêem depois pudessem sentir sem ver o que eles sentiram vendo e vivendo todo aquele tempo com alguém que eles testificam ser um homem cheio de graça e formosura.
Quem entende da formação oral dos mitos, do significado da simbologia, e sabe o que é um processo de edição de um livro e que sabe como é escrever ao coração, sabe que não existe nada de divino nestes livros, e sabe que o literal foi sufocado para que a mensagem fosse viva, e tão viva que apaixonou milhões (e que ainda emociona corações em todo o mundo hoje) sabe também que tal homem e historia não foi e não poderiam ser inventados, pois todo o processo ali dos autores foi tão humano, tão subjetivo e tão passionalmente escrito que somente o Amor destes discípulos foi o que provocou o talento literário destes homens para salvar esta mensagem como eles entenderam, quiseram entender, e quiseram que nós entendêssemos.
Esdras Gregorio
Escrito em 17/11/10
Baseado unicamente em minhas antiga anotações da leitura comparativa que fiz dos quatro evangelhos.