quarta-feira, 5 de maio de 2010

Império do medo



No tempo em que eram construídas as primeiras catedrais
góticas, nas regiões montanhosas da antiga Gália,
aconteceu um episodio horrível que marcou a vida
e crendice dos camponeses por varias gerações.

Pois morava nas florestas um homem tido como bruxo,
que de tempo em tempo descia para as praças da cidade
para despregar tudo os que os monges ensinavam sob
orientação do seu bom e velho bispo.

Diziam eles que não convinha a alma dos santos desfrutarem
dos prazeres desta vida, mas antes usar a parte destinada
de suas rendas as coisas supérfulas para a manutenção
do império de Deus nesta terra.

Mas o bruxo, e de fato era bruxo mesmo, pois conversava
com as plantas e animais e se automedicava com as ervas
milagrosas e exóticas da Terra, não suportava em ver
ser privado do pobre o seu direito aos pequenos deleites
e prazerem desta sua única vida nesta terra.

Isto deixava o bispo numa situação desconfortável, pois
pregando o amor cristão não poderia eliminar aquele que vinha
perturbando a seara do Senhor. E assim teve que
suportar aquilo esperando ansiosamente descer a vingança divina.

Mas não tinha jeito, o homem que fora acostumado a
enfrentar as feras nas florestas para sobreviver, não
temia nem um pouco o olhar raivoso dos monges que
ele contradizia nas suas aparições esporádicas entre o povo.

Mas aconteceu que um dia estando ele na floresta machucando
e exausto pelas sucessivas lutas arriscadas que travava
para sobreviver entre os bichos e a fúria da natureza,
foi surpreendido por uma ursa inconsolada que o despedaçou.

Aquilo causou um temor e terror em cadeia entre o povo
sem precedentes, pois as suas partes foram encontradas
em vários lugares daquela região. Estava feito,
a superstição prevaleceria sobre a razão, e ninguém mais
em muito tempo ousaria se levantar contra a santa madre igreja.

E assim depois de algum tempo o velho octogenário,
cercado de médicos e soldados, e sempre alimentado pelas
melhores e mais saldáveis comidas, morreu dormindo,
gordo e feliz abraçado num travesseiro de plumas
de aves raras na suíte máster de seu castelo.


Gresder Sil



Inspirado na morte trágica do Pai de meu amigo nordestino e poeta assembleiano: Levi Bronzeado, a qual foi tida pelos irmãos como castigo de Deus pelas suas “heresias”.

E como eu não sou bobo e não perco vigem serve para mim também como uma espécie de “epitáfio” ou “justificação” (explicação psico- sociológica) caso minha morte seja prematura ou ignominiosa, já que “decidi” viver em Todos os sentidos uma vida de alto risco, não buscando mais a imunidade “divina” privilegiada. Que esta supostamente reservada somente para os santos bem-aventurados, e da qual não desfruta o resto da humanidade a que pertenço e me solidarizo até a morte como criatura do mesmo e Único Deus indomesticável.

Detalha o bispo não é uma indireta a alguma pessoa real, mas apenas um arquétipo de pessoas religiosas que naturalmente vão morrer velhas, seguras e honradas por seguirem as boas crenças que professam e não viverem na intensidade, tensão e periculosidade de quem anda na contra mão.

14 comentários:

Gabriel Nagib disse...

Desde que tomei essa decisão, eu também sabia que seria difícil. Nenhuma garantia de vida boa, de paz e sossego. Sei que terei que enfrentar a vida com a cara e a coragem, com uma FÉ que confia mas não tem certeza de nada, nem exige nenhum benefício, pelo contrário, apenas é grata pelo que recebeu e tenta aproveitar ao máximo seus dons. E se não der certo, pelo menos direi que tentei, que lutei. Mas não direi que foi o diabo ou qualquer outro ser imaginário, que me roubou.

É um caminho estreito, mas é mais sincero e verdadeiro do quê se agarrar a seres imaginários e esperanças de vitórias (todo crente crê que terá vitória, ainda nessa vida, sobre todos seus males). É ser como um Jacó, que até lutar com um anjo lutou, ao invés de ficar chorando aos pés dele pedindo por um milagre (como certos/todos cantores gospel adoram fazer).

É ser assim, ousado, brigando pela vida, e não chorando como um menino mimado. Não é exigir a bênção de Deus, não senhor. É brigar por ela, lutar na vida, como todo mundo faz.

Levi Bronzeado disse...

Gresder, meu "alter-ego"

Estávamos debatendo dobre "intercessão" lá na Sala do Eduardo, e surge essa grande coincidência nos nossos textos(realçado ainda mais pela música que postei). Será que isso foi obra do acaso?

Uma coisa eu sei, na linguagem mítica vétero-testamentária, o que aconteceu conosco seria escrito dessa forma, nas escrituras sagradas:

"E o Esdras foi transportado em espírito de Campinas para a Paraiba, de maneira que os de Campinas viram o "milagre" do seu aparecimento no mesmo instante em que os paraibanos o viam".

Muitos ficaram admirados e se postaram de joelhos, pois, em suas mentes naturais, não podiam entender o que deus ali estava realizando.

O acontecimento (coincidência)é narrado de acordo com as épocas. Cada época tem a sua linguagem explicando o mesmo fato.

Na verdade,por nos identificarmos, ultimamente, em muitas ideias, estávamos amadurecidos, para a postagem de um texto "messiânico". (rsrs)

Aí, o herege do Levi, já entra com a sua racionalização, para tirar toda a conotação milagrosa da coincidência textual. (rsrs)

Paulinha disse...

Amigo GRESDERZITTO,

Esta sua postagem é bem contundente, pelamordedeus...rs..

Olha não creio que Deus condenaria à uma morte súbita e temível aquele que escolheu viver "sem Ele"....e claramente que Ele imaginou que nem todos o seguiriam, e que nem todos o ignorariam....quando projetou sua criação..

Cada pessoa é única, e o modo de pensar é distinto....não critico quem escolheu viver uma vida de "ateu", é um direito aberto à qualquer um....mas particularmente, quem optou por esta opção, também optou a enfrentar os problemas e viver os problemas sozinhos....pois quem decide entregar sua vida á Deus, claramente que viverá com a esperança "daquela solução" abençoada-milagrosa-vitoriosa chegar.....

E quem optou viver sem Ele, viverá uma vida dura, cruel....e sem esperanças de uma solução milagrosa-inesperada chegar....

Mas será que a vida é mais facil para quem dedica sua vida à Ele ou a vida é a mesma, tanto para quem se auto dedicou ou não dedicou à Ele??!!

Eu respondo, que a vida é uma "droga" para TODOS, se analisada ao "pé da letra", e para conhecer o "inferno" não precisa morrer, pois o "inferno" está aqui neste mundo mesmo, um mundo cheio de doenças, violências, estupros, mortes, injustiças, pobrezas, dores...etc e tal......

Então resume-se numa coisa, a vida é dura para TODOS, ninguém está liberto da dor ou do sofrimento, e nenhuma pessoa morrerá sofrendo porque tem que sofrer, e nenhuma morrerá dormindo porque foi "santa".....é o destino...

Quando eu morrer, simplesmente vou morrer porque chegou a minha vez, seja dormindo, viajando, cantando, comendo...

Eu deixo claro que decidi viver uma vida ao lado dEle, esta é uma consequência da minha mais absoluta fé, e é um direito meu também.

Mas Deus nos ama de forma incondicional, isto nunca podemos nos esquecer.....basta olharmos ao nosso redor, atenciosamente para aquele lindo pôr-do-sol que inexplicável nos oferece o mais lindo dos lindos espetáculos todos os dias...

Abraços.

Nossa preciso colocar meu nome em primeiro lugar na lista dos tops comentaristas...hahahah....

Blog do Evaldo Wolkers disse...

Gresder,

Peço aqui autorização para replicar teu texto em meu blog.

Não entendi, o pai do Levi faleceu de forma trágica e a "acusação" foi heresia dele ou, pior ainda, do seu filho Levi?

Eu também já tinha me "vacinado" contra estas acusações no início de minha caminhada "herética".

Segue relatos:
(se eu morrer ao publicar este post, ou até mesmo 50 anos depois saiba que não é castigo de Deus porque eu Amo a Deus e Ele me ama, sendo assim, quem Ama não tira a vida, quem ama de verdade não mata ou lança enfermidades na pessoa amada)
http://evaldocristao.blogspot.com/2009/12/revelacao-sobre-dons-espirituais.html

E quer saber a verdade?
Estou vivendo a vida sem medo de morrer, porque para mim a morte me levará ao Altíssimo.
A morte para mim é a minha maior vitória.

Sei que é egoísmo de minha parte dizer isto porque se eu morrer hoje deixarei saudades infindáveis em minha esposa, filhos, amigos, pai, mãe, mas por mim, A MORTE É A MELHOR COISA QUE PODE ACONTECER NA MINHA VIDA.
Não aguento mais ser a pedra que clama no deserto.
http://evaldocristao.blogspot.com/2009/12/vai-uma-profeciazinha-ai.html

Evaldo Wolkers.

Eduardo Medeiros disse...

Bravo, Gresder...sincronicidade, Levi, Jung chamava isso de sincronicidade...é o universo se movendo ou antes sendo movido pelas forças místicas e incompreensíveis da alma.

Oséias Balzaretti disse...

Este sentimento, em relação a Deus, do castigo por se "rebelar" está profundamente arraigado na alma dos ocidentais. Aliás, acho que em quase todas as formas de religiosidade tal "sentimento" prevalece.

Crescemos sob o "temor" a este Deus vingativo, naõ é mesmo? E tudo o que fizemos antes de nos "rebelarmos" contra tais "conceitos" em relação a Deus, vivíamos sob tais ditames.

Afinal, esbarramos quase sempre em tal conceito do "Deus/Vingador" em muitos aspectos de nossa vida.

Marcio Alves disse...

.
A existência do existir do sujeito cognocente da subjetividade de cada pessoa que vive não mais sobre as ilusórias ilusões da religiosidade da religião protetora, é vivida na mais pura liberdade tanto para o desastre quanto para a boa sorte, sabendo que nada esta previamente programado por um Deus soberano que castiga ou protege com proteção os seus protegidos.

Na luta pela vida na existência de uma vida existente na rua da vida,tudo é possível,tanto o mal como o bem, que atinge tanto o bom quanto o mau que existe no seu existir subjetivo na mais pura liberdade dos destinos destinados ao santos ou perversos.

Assim a religião dominadora que domina na religiosidade da mente de cada individuo individual religioso, não mais tem o direito de decretar qualquer decreto decretante sobre as nossas desgraça ou bem aventuranças,pois sabemos que na vida vivente em que vivemos nesta vida tudo é regido pelo acaso da sorte que atinge a todos na rua da vida conforme a teologia de rua que você bem caracterizou neste seu conto.

Parabéns pelo texto Gresder quando eu crescer eu quero ser igual a você.

Isa Medeiros disse...

É realmente muito mais fácil parecer "abençoado" quando se segue a cartilha da igreja.
Hoje meus amigos de infância estão casados (uns bem outros mal), com cargos na seita e se sentindo muito melhores do que eu, um des-viado (kkk), sem família constituida e blá blá blá.

"Todo questionamento será castigado", esta é a máxima para quem quer ser bem visto no curral evangélico.

Gresder Sil disse...

Gabriel o que você descreveu é aquilo que nos chamamos de teologia de rua, ou seja é teologia feita na vulnerabilidade e fragilidade da vida de todo ser humano que não esta imune diante dos desastres e acasos infelizes que nos abatem.

Creio que esta também era a teologia de Jesus, pois para ele Deus faz raiar o sol sobre bons e maus justos e injustos, não há privilegiados, todos estão debaixo e sujeitos as mesmas chuvas ( ou enchentes?).

Gresder Sil disse...

Levi como você faz uma coisa dessas para comigo, se o pessoal de campinas ler isso eles vão pensar que vocês estão me transformando em um novo cristo rsrsrs.

Levi eu acho que daqui somente eu e o Eduardo deve saber um pouco sobre o seu pai e por isso eu peço para você se da para falar um pouco meio que por cima sobre a vida e morte do seu pai.

Gresder Sil disse...

Paulinha entre aqueles que crêem em Deus e crêem num inferno e aqueles que não crêem em Deus e não crêem em uma condenação, eu acho que da empate.

Pois um tem a sensação maravilhosa de não estarmos sozinhos na existência, mas sabe que no fim muitos iram penar pela eternidade. Enquanto o outra não tem este sentido mágico e místico de ser produto de um ser criador inteligente, mas também, sabe que quando morrer acabou tudo, toda dor, tudo sofrimento, toda lagrima e principalmente toda consciência de dor sofrimento e miséria s humanas.

Agora estar neste meio termo, aonde a vida é riquíssima de significados em Deus, sem o ““tédio”” ou a dor de uma eternidade é um caminha mais excelente do que os dois acima.

Gresder Sil disse...

Evaldo quem anda na contra mau tem que se antecipar e se vacinar mesmo contra esta acusação de “castigo” de Deus pelas heresias. Ou melhor temos que deixar testamentos epitáfios documentos etc, pois enquanto os acontecimentos desastrosos atingirem os “santos”, isto será tido como provação de um justo, mas quanto aos acidentes dos “ímpios” isso será maldição.

Não tem jeito eles tem explicação pra tudo, mas acontece que tem coisas que simplesmente não se tem explicação e nem culpados, simplesmente acontece por uma lei de casualidade da existência.

Gresder Sil disse...

Oseias vou te contar uma coisa eu tenho medo as vezes, as vezes fico mal, mas não é medo de Deus, mas simplesmente medo de estar fazendo mal a algum homem, o meu problema é com os homens, a minha tensão a minha briga aminha divida são ao homens que pintam a Deus.

Todos nós demos uma cara e uma cor a este Grande desconhecido, mas ele não tem cara não tem cor não tem nome a não ser todos os que cada um de nos damos.

Eu não tenho medo do castigo de Deus, eu tenho medo do castigo do destino, da fatalidade da vida e da injustiça religiosa que vai se promover em cima do acaso infeliz de minha existência.

Gresder Sil disse...

Isaias a religião faz uma seleção natural, os mais aptos e mais fortes a resistirem naturalmente as “tentações” vão sobrevivendo na religião, enquanto os mais fracos que sucumbe as normas vão ficando para traz.

Ai que os fracos não somente sofrem a injustiça aleatória da vida que os desfavoreceu como também a recriminação e acusação injusta dos religiosos que simplesmente nasceram com condições humanas naturais para se adaptar ao sistema.

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“todo ponto de vista é à vista de
um ponto, nos sempre vemos de um
ponto, somente Deus tem todos os
pontos de vista e tem a vista de
todos os pontos.”
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